Opinião do Médico

O olhar de um médico sobre a maçã

Origens

A referência mais famosa sobre a maçã talvez seja a passagem bíblica do livro do Génesis, na qual é narrada a tentação de Adão e Eva, que comeram, no Jardim do Éden, o fruto proibido da árvore da ciência ou árvore do “conhecimento do bem e do mal”, criada por Deus, e que, por isso, foram expulsos do Paraíso.

Após o ocorrido, de acordo com a tradição cristã, toda a humanidade ficou privada da perfeição e da perspectiva de vida infindável. Surgiria assim a noção de pecado herdado, da tendência inata a pecar, e a necessidade de um resgate da humanidade condenada à morte.

Na verdade, a Bíblia não menciona o nome da fruta intocável. A noção de que seria uma maçã surgiu muito tempo depois, quanto atingiu o prestígio de fruta mais comum no oeste da Europa, abundantemente retratada por pintores da época.

 

Caracterização

A maçã é o fruto da macieira, árvore da família Rosaceae, pertencente ao género Malus. As variedades mais comuns são Malus domestica e Malus sieversii e respectivos híbridos. A árvore originou-se na Ásia Central onde o seu ancestral selvagem é ainda hoje encontrado.

Do ponto de vista científico a maçã não é verdadeiramente um fruto, mas sim um pseudofruto (falso fruto).

A maçã foi uma importante fonte alimentar em todos os climas frios e a macieira é, provavelmente, a árvore há mais tempo cultivada. É a espécie de fruta, com excepção dos citrinos, que pode ser conservada durante mais tempo, sem perder grande parte do seu valor nutritivo. As maçãs de Inverno, colhidas no final do Outono, e guardadas em câmaras ou armazéns, acima do ponto de congelamento, têm sido um alimento destacado, durante milénios, na Europa, Ásia e Estados Unidos da América.

Há mais de 7.500 espécies e variedades de maçãs, que se encontram em climas temperados e sub-tropicais, já que as macieiras não florescem em áreas tropicais pois necessitam de um número considerável de horas de frio, que é variável em função da variedade cultivada.

Na nossa região as variedades mais representativas são as do grupo Golden (Golden Delicious, Belgolden, Lysgolden), que representam cerca de 50% do total da produção, seguindo-se depois as variedades do tipo Starking (Starking, Top Red, Hi Early, Richared e Red Delicious) e do tipo Spur (Erovan, Welspur, Oregon Spur, Red Chief), com uma representatividade de cerca de 40% da produção. Variedades como o Bravo de Esmolfe, Reineta Parda e Galas completam os 10% restantes.

 

Virtudes medicinais da maçã

Vários estudos confirmam a importância de uma dieta rica em frutos e hortaliças, pois diminui o risco de doenças cardiovasculares e certos tipos de cancro, doenças que se situam entre as principais causas de morte em países industrializados e que são influenciadas pelo estilo de vida e pelos hábitos alimentares.

As fibras e fitoquímicos abundantes nos vegetais podem inibir a proliferação celular de células cancerosas, proteger contra a oxidação de gorduras, regular processos inflamatórios e a resposta imunológica.

Crê-se que já Hipócrates, o pai da medicina moderna, recomendava vinagre de maçã para evitar doenças e rejuvenescer o corpo.

A partir de estudos efectuados em populações, é possível dizer que a maçã pode exercer um importante papel na promoção da saúde humana.

As maçãs são uma fonte rica de nutrientes orgânicos e inorgânicos (fibras, minerais, vitaminas) e contêm elevados níveis de polifenóis e outros fitoquímicos. As principais classes estruturais de constituintes da maçã incluem ácidos hidroxicinâmicos, flavonóides (glicosídeos de quercetina), catequinas e procianidinas oligoméricas, bem como triterpenóides na camada cuticular cerosa da casca da maçã, e antocianinas nas maçãs vermelhas.

Os constituintes fenólicos distribuem-se pelo epicarpo (casca), mesocarpo e endocarpo. A quantidade e composição destes constituintes variam com a variedade de maçã, a área de cultivo, o mês e o ano de colheita.

Com excepção dos níveis de proteínas, fibras e vitamina C, a composição média em nutrientes das maçãs e do sumo de maçã é similar.

Várias linhas de evidência sugerem que as maçãs e os seus derivados possuem um vasto leque de actividades biológicas que podem contribuir com efeitos benéficos para a saúde contra doenças cardiovasculares, asma, disfunção pulmonar, diabetes, obesidade e cancro.

 

Doenças cardiovasculares

Os estudos mais importantes apontam para uma associação positiva entre o consumo da maçã e uma redução no risco de doenças cardiovasculares.
 
Parte da diminuição do risco cardiovascular atribuído à maçã parece ocorrer em razão da sua estabelecida capacidade de reduzir o colesterol, acreditando-se que o consumo regular de uma unidade de fruta inteira por dia é excelente para se prevenir e manter a taxa de colesterol em níveis aceitáveis, o que se explica por acção da pectina, encontrada na casca.

Esta pectina também auxilia no processo de emagrecimento, ao dificultar a absorção de gorduras e de glicose.

O alto teor de potássio contido na polpa da maçã ajuda a eliminar o sódio em excesso, e indirectamente, o excesso de água retido no corpo, funcionando pois como diurético, o que contribui para a redução dos edemas e da hipertensão arterial.

A sua casca seca é também usada como chá com propriedades diuréticas.

O potássio e o controlo do colesterol traduzem-se em efeitos benéficos sobre o coração, prevenindo a arteriosclerose (deposição de gorduras na parede das artérias e calcificação da sua camada média), diminuindo dessa forma a resistência vascular periférica, melhorando a circulação sanguínea, reduzindo o trabalho cardíaco e prolongando a vida útil do coração.

A maçã é também rica em quercetina, que ajuda a evitar a formação de coágulos sanguíneos, capazes de provocarem tromboses, factor desencadeante dos enfartes do miocárdio e dos acidentes vasculares cerebrais.

 

Aparelho digestivo

A maçã actua ainda como laxante, prevenindo a obstipação crónica, porque durante a sua digestão se promove a absorção de água para o interior do lúmen intestinal, a qual vai contribuir para a consistência mole das fezes.

 

Sistema Nervoso, Sangue e Metabolismo

A maçã contém vitaminas (B1, B2 e niacina), sais minerais, fósforo e ferro, essenciais ao desenvolvimento do sistema nervoso, à formação do sangue e ao metabolismo.

Por isso se recomenda que seja consumida ao natural, com casca, pois é junto dela que estão a maior parte destes nutrientes.

 

Asma e Diabetes tipo II

Outros estudos importantes apontam para uma associação positiva entre o consumo da maçã e uma redução da asma e da diabetes tipo II, em comparação com outras frutas e vegetais.

Mostram também que o seu consumo se associa a uma melhoria da função pulmonar.

 

Doenças articulares e de pele

A maçã é ainda recomendada, pelas suas propriedades anti-inflamatórias, e reguladoras imunológicas, para pessoas com reumatismo, gota e doenças da pele.

 

Doenças cancerosas

Nos últimos anos, fizeram-se enormes progressos no conhecimento do processo carcinogénico quer ao nível celular, quer ao nível molecular. Isto levou ao desenvolvimento de uma nova abordagem na prevenção do cancro, designada como “quimioprevenção”, a qual tem por finalidade bloquear, inibir ou reverter o desenvolvimento e progressão de células pré-cancerosas através do uso de nutrientes não citotóxicos e/ou de agentes farmacológicos.

A carcinogénese, formação do cancro, é geralmente um processo lento, e frequentemente passam-se décadas, desde a iniciação do tumor ao diagnóstico, o que nos oferece um lapso de tempo considerável para medidas de quimioprevenção.

Assim, a validação e utilização de componentes da dieta, de produtos naturais ou dos seus análogos sintéticos, como potenciais agentes quimiopreventivos, na forma de alimentos funcionais, ou nutricionais, com fins curativos, tornou-se matéria de extrema relevância na investigação actual relacionada com a saúde e com o cancro.

Nesse desiderato, estudos realizados com a casca da maçã mostraram uma potente acção anti-oxidante, actividade que se origina de uma variedade de componentes, inclusive da vitamina C.

Esta fruta revelou também um potente efeito inibidor sobre o crescimento de células cancerosas da pele, mama, pulmão, fígado e cólon.

De facto, a maçã possui a terceira maior capacidade anti-proliferativa, perdendo apenas para o mirtilo e para o limão. Neste quesito, a casca mostrou-se de extrema relevância, já que os sucos de maçã possuem menos fitoquímicos que a maçã completa, com casca.

Os componentes e derivados da maçã, especialmente as procianidinas oligoméricas, têm demonstrado influência sobre múltiplos mecanismos relevantes para a prevenção do cancro, os quais incluem actividade anti-mutagénica, modulação do metabolismo dos carcinogénios, actividade anti-oxidante, mecanismos anti-inflamatórios, modulação das vias de transdução de sinal, actividade anti-proliferativa e indutora da apoptose, bem como novos mecanismos de acção epigenética e de imunidade inata.

Enquanto novos estudos prosseguem, investigando em detalhe as virtudes nutricionais da maçã, não parece existir dúvida, de um modo geral, de que estamos diante de uma fruta de forma e conteúdo excepcionais.


A maçã na poesia

Tão excepcional que há quem lhe dedique poemas, como 3ZA no seu blogue “Tempo de Teia”, com o seu

Poema de Maçã

Não podendo ser diferente
estou aqui à frente
de uma tarte de maçã que não há
porque ninguém a fez
Corto-a devagar, com a faca que não tenho,
nem preciso
e levo uma fatia de coisa alguma à boca
num prato vazio
que não vi.

Curioso…
cheira e sabe a maçã
a fatia
deste poema
que (não) comi


Ou como Manuel Bandeira, poeta brasileiro do século XX, com o seu poema

Maçã

Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda o cordão placentário
És vermelha como o amor divino

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel

Dr. Rui Gradiz
Licenciado com grau de especialista, em Gastrenterologia, pela Faculdade de Medicina de Coimbra

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